Happy birthday to you, sis! Agora, durante oito dias, temos a mesma idade. Não abuses.
Showing posts with label efemérides. Show all posts
Showing posts with label efemérides. Show all posts
Friday, 10 April 2009
Thursday, 19 March 2009
Trinta anos de irmão

Quando nasceu foi alvo da inspecção minuciosa das irmãs, ambas na idade impressionável que antecede os estudos primários: "Ui, que feio que é o mano!", concluíram. Juízo precoce: em menos de nada converteu-se num bochechudo que apetecia comer à dentada, bombocas de morango ou de chocolate à escolha das freguesas, as mesmíssimas más-línguas da maternidade, agora convertidas à adoração do irmão.
Entre o amor e o ódio, venha porém o diabo e escolha: regressadas da escola, vestíamo-lo de vestidinho aos folhos por cima da camisola, chapéu de lã com flores, que bonito que era o mano, qué guapo!, juravam as espanholas da Aldeia das Açoteias, ainda o Algarve não era a West Coast, ele rodeado de bolas de todos os tamanhos e feitios, oferenda dos adultos na tentativa vã de o conquistarem só para eles.
O "xedutor" no AlgarveTodos o queriam: houve mesmo quem quisesse comprá-lo, "nós não temos filhos, vocês já têm duas, deixem-nos adoptá-lo, pagamos o que for preciso". Queriam: o progenitor sempre foi paranóico, e com nenhum dos filhos tomou tantos cuidados para que não fossem raptados. Os perigos espreitavam realmente de todos os lados, mas como noutros crimes com menores, o maior de todos acoitava-se em casa: eu, a mana mais velha na-altura-não-tão-velha, sonhava raptá-lo, minha única trouxa quando fugisse de casa, que foi lugar que sempre achei um bocado mal frequentado e de onde pensei raspar-me mal me trouxeram da maternidade.
Tinha tudo planeado com a logística perfeita dos sete anos (já nessa altura era uma grande estratega): abalávamos de boleia para o Porto (que na altura se limitava à rua Pereira Reis), eu vendia bugigangas nos cafés (amostras de champô e perfume que havia de cravar nas perfumarias do bairro ou roubar das revistas na tabacaria), e com o lucro comprava bens de primeira necessidade para ambos, arroz, arroz e mais arroz (datam dessa época as infindáveis perguntas à mãe, "mãe, quanto custa um Kg de arroz?", "mãe, quanto custa uma dúzia de ovos?", havia que deitar contas à vida caso a quotação das amostras baixasse abruptamente no mercado). Note-se que não me movia, neste rapto sonhado que me consolava os dias, nenhuma espécie de altruísmo ("tenho de salvar o irmão das garras do amor paterno"). Nã, egoísmo do mais desbragado: passe o dramatismo, não podia viver sem ele.
Irmão "drag queen"
Trinta anos dele e continuo a precisar do gajo como de arroz para a boca. No Península a curtir uma fossa colectiva, tive uma noite uma bela epifania: eu era na verdade uma felizarda amada pelos deuses, porque apesar de todos os pesares, tinha uma versão revista e melhorada de mim própria na família, quitadinha com carradas de sentido de humor e sex appeal masculino. Agora vejam bem se atingem a enormidade da revelação (noite iluminada, essa): em milhões de famílias chinesas, argentinas, togolesas, venezuelanas ou guianenses à escolha, o meu irmão tinha nascido por puro e inacreditável acaso na mesma família que eu. UAU! Pasmem. Acreditem em deus ou nos deuses, na reincarnação do espírito, na pagã serendipidade: esta coincidência, sob todas as evidências um prodígio de generosidade do grande arquitecto, beneficiava-me a mim e só a mim: o Universo era na altura um lugarejo deserto e assustador, e sem o irmão eu teria batido com a porta antes de completar oito anos. Não seria grande perda, mas era uma merda, porque tínhamos ambos ainda muita coisa que viver.
Como nas grandes paixões, estar com o mano foi sempre um fim em si mesmo. Praticávamos ambos o situacionismo avant la lettre, antes mesmo de ele me ter apresentado Guy Debord: hei-de estar às portas da morte, ou ela à minha porta, e no filme da minha vida que não hei-de deixar de visionar reverei um rapaz e uma rapariga com narizes da mesma estirpe, deitados no esplendor da relva a ecoar "UóÁÁ!", agitando o sol com as suas gargalhadas, algures na Alsácia francesa - ou de como a plenitude do ser, desculpem o palavrão, se contenta com bem pouco. Outros programinhas situacionistas: o luxo de gastar tardes inteiras a pedalar na Volta a Portugal, deitada no sofá ("Podes sonhar! Correr o mundo nessa nave a pedal!"); ser usufrutuária de "dopping" de empurrão nas encostas de Porto Santo; discutir o sentido da vida em longas chamadas telefónicas; devorar compotas para calar "fame chimica"; preferir um relvado na Alemanha a todas as catedrais do país ("Está gostando de Bonn?"). Foram cardos, foram prosas, porque esta love story tem tudo para ser um sucesso de audiências Hollywoodesco, drama, tragédia, suspense e dor. A actriz que dará vida à minha interessantíssima pessoa há-de chorar longas lágrimas num comboio regional a regressar de Utrecht, há-de sobressaltar-se no dia de Natal a muitas milhas de distância, e há-de querer trocar toda a felicidade a que tem direito por cinco minutos da felicidade dele. Vai ser de chorar baba e ranho, olhem o que vos digo, dramalhão à antiga com final feliz ao gosto das audiências. Havemos de ir vê-lo os dois, num cineminha em Utrecht com cartazes retro à entrada, pago eu.
N.B. O irmão fez anos há dois dias (salvé o 17 de Março!, como escreve a progenitora), mas estive raptada por múltiplos afazeres. Tarde mas sentidamente, aqui vai a minha homenagem a essa figura maior da minha vida.
Trinta anos dele e continuo a precisar do gajo como de arroz para a boca. No Península a curtir uma fossa colectiva, tive uma noite uma bela epifania: eu era na verdade uma felizarda amada pelos deuses, porque apesar de todos os pesares, tinha uma versão revista e melhorada de mim própria na família, quitadinha com carradas de sentido de humor e sex appeal masculino. Agora vejam bem se atingem a enormidade da revelação (noite iluminada, essa): em milhões de famílias chinesas, argentinas, togolesas, venezuelanas ou guianenses à escolha, o meu irmão tinha nascido por puro e inacreditável acaso na mesma família que eu. UAU! Pasmem. Acreditem em deus ou nos deuses, na reincarnação do espírito, na pagã serendipidade: esta coincidência, sob todas as evidências um prodígio de generosidade do grande arquitecto, beneficiava-me a mim e só a mim: o Universo era na altura um lugarejo deserto e assustador, e sem o irmão eu teria batido com a porta antes de completar oito anos. Não seria grande perda, mas era uma merda, porque tínhamos ambos ainda muita coisa que viver.
Como nas grandes paixões, estar com o mano foi sempre um fim em si mesmo. Praticávamos ambos o situacionismo avant la lettre, antes mesmo de ele me ter apresentado Guy Debord: hei-de estar às portas da morte, ou ela à minha porta, e no filme da minha vida que não hei-de deixar de visionar reverei um rapaz e uma rapariga com narizes da mesma estirpe, deitados no esplendor da relva a ecoar "UóÁÁ!", agitando o sol com as suas gargalhadas, algures na Alsácia francesa - ou de como a plenitude do ser, desculpem o palavrão, se contenta com bem pouco. Outros programinhas situacionistas: o luxo de gastar tardes inteiras a pedalar na Volta a Portugal, deitada no sofá ("Podes sonhar! Correr o mundo nessa nave a pedal!"); ser usufrutuária de "dopping" de empurrão nas encostas de Porto Santo; discutir o sentido da vida em longas chamadas telefónicas; devorar compotas para calar "fame chimica"; preferir um relvado na Alemanha a todas as catedrais do país ("Está gostando de Bonn?"). Foram cardos, foram prosas, porque esta love story tem tudo para ser um sucesso de audiências Hollywoodesco, drama, tragédia, suspense e dor. A actriz que dará vida à minha interessantíssima pessoa há-de chorar longas lágrimas num comboio regional a regressar de Utrecht, há-de sobressaltar-se no dia de Natal a muitas milhas de distância, e há-de querer trocar toda a felicidade a que tem direito por cinco minutos da felicidade dele. Vai ser de chorar baba e ranho, olhem o que vos digo, dramalhão à antiga com final feliz ao gosto das audiências. Havemos de ir vê-lo os dois, num cineminha em Utrecht com cartazes retro à entrada, pago eu.
N.B. O irmão fez anos há dois dias (salvé o 17 de Março!, como escreve a progenitora), mas estive raptada por múltiplos afazeres. Tarde mas sentidamente, aqui vai a minha homenagem a essa figura maior da minha vida.
Tuesday, 6 January 2009
JotaPê
Tanta coisa com o JotaPê, tanta coisa com o JotaPê, mas foi a mim que ele disse, decorria o ano de 1999, na primeira (e única) Semana Académica de Vila Real da minha vida, horas depois do concerto dos 12 maravilhosos, "Joana, perdi o meu cachecol, Joana".
Ao que eu respondi qualquer coisa como "Mas eu sou tua mãe, por acaso?", que na altura o mau-feitio era ainda mais pronunciado e dava-me especial gozo ignorar o facto de ele saber o meu nome, em vez de ficar como as parvinhas das gajas que o rondavam incessantemente, aos gritinhos.
Ao que eu respondi qualquer coisa como "Mas eu sou tua mãe, por acaso?", que na altura o mau-feitio era ainda mais pronunciado e dava-me especial gozo ignorar o facto de ele saber o meu nome, em vez de ficar como as parvinhas das gajas que o rondavam incessantemente, aos gritinhos.
Wednesday, 31 December 2008
Gude Rutsche a Nei Joer*
*Boa escorregadela para o Ano Novo, em luxemburguês (não respondo pela correcção ortográfica - idioma de cão, credo!).
O país acordou solidificado em "verglas", servido on the rocks, dois dedos de gelo a tornarem qualquer excursão fora de portas uma aventura por sua conta & risco. O espelho de água em estado sólido já levou centenas às urgências de ortopedia e fará muitos acordarem engessados em 2009. Fenómeno do mafarrico, gelo mutante, transgénico: toneladas de sal e areia não derreteram o monstro. Tudo parado, com os poucos autocarros a deslizarem artistiscamente, bailarinos russos de patins. Quando finalmente cheguei ao trabalho, abraçada ao corrimão das escadas da entrada - ponha aqui o seu pezinho, devagar devarinho -, a recepcionista parecia que tinha visto um fantasma. "Tu as réussi a venir travailler?!?". Não sei para que é que me incomodei: além dela e desta vossa irmã mais velha mas nem por isso mais ajuizada só encontrei nos corredores meia dúzia de espíritos do Ano Velho.
Happy New Year, wherever you are, e cuidadinho nas ruas.
O país acordou solidificado em "verglas", servido on the rocks, dois dedos de gelo a tornarem qualquer excursão fora de portas uma aventura por sua conta & risco. O espelho de água em estado sólido já levou centenas às urgências de ortopedia e fará muitos acordarem engessados em 2009. Fenómeno do mafarrico, gelo mutante, transgénico: toneladas de sal e areia não derreteram o monstro. Tudo parado, com os poucos autocarros a deslizarem artistiscamente, bailarinos russos de patins. Quando finalmente cheguei ao trabalho, abraçada ao corrimão das escadas da entrada - ponha aqui o seu pezinho, devagar devarinho -, a recepcionista parecia que tinha visto um fantasma. "Tu as réussi a venir travailler?!?". Não sei para que é que me incomodei: além dela e desta vossa irmã mais velha mas nem por isso mais ajuizada só encontrei nos corredores meia dúzia de espíritos do Ano Velho.
Happy New Year, wherever you are, e cuidadinho nas ruas.
Sunday, 23 November 2008
Voltem, que estão aperdoados

O Vaticano aproveitou ontem o 40º aniversário do melhor álbum dos Fab Four para se pôr em biquinhos de pés e perdoar-lhes por serem mais famosos que Jesus. Or words to that effect. Atrasados, aqui ficam os parabéns de nós os quatro.
Via jugular
Subscribe to:
Posts (Atom)