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Tuesday, 6 January 2009

Imitando JêPê

Vá, finge que ainda acreditas que vou escrever um livro, romance sem chave, a história para acabar com as estórias, e p'ra começar - como é que se diz Pulitzer em português? Gastei as metáforas, sobram-me adjectivos, de qualquer das formas prefiro o inglês. Diz-me que sonhos trazias, que fazes dos dias, não estão muito usados, troco os teus pelos meus. E finge que não, não tinha razão, quem disse que a vida é sempre a perder.

[a ressacar depois de umas horas passadas a ler isto e isto também, lá do autor da real thing]

O futuro

"Amanhã não estaremos aqui, veja se bebe um pouco e sorri e tira esses olhos do chão! O futuro é lindo: eu já vi! E o avião vai directo para lá! Vamos embora dessa aflição!"

(São Paulo 451, Belle Chase Hotel, letra de J.P. Simões disponível integralmente aqui , música aqui)

Je vais me faire psychanalyser


Demain, je vais aller au laboratoire, parce qu’on m’a dit que je suis pas normal. Je vais me faire psychanalyser. "Docteur, je bois excessivement comme tous les autres, car ma pensée est triste et delirante, neurastenique mon pauvre coeur. La vie, toujours plus ordinaire et merveilleuse, se cache dans l'apparence des choses, entre l'amour et toutel mort. Et moi, je n'aime que la tragicomédie, j'ai des cauchemars et peux pas dormir avant que le soleil s'eveille. J'écris pendant la nuit mon oeuvre singulière: je connais dieu à cause de son absence et j'ai peur du silence e de la mer. Merde. Je ne sais pas ce que je dois faire, c'est un mystère cette dicotomie entre la gloire et la misère. Oh s'il faut souffrir ou être bienheureux, je pense que je peux pas faire grand' chose dans la toilette des étoiles. Et s'il y a un dieu ou deux, je n'ai que mon destin. Et tout ça m'est égal dans la toilette des étoiles. (La Toilette des Étoiles, Belle Chase Hotel, letra de JP Simões)

Eu, a Ju e mais uns milhares de pés descalços partilhamos a glória de ter descoberto o J.P. Simões, ex-Belle Chase Hotel, num concerto em Paredes de Coura, em Agosto de 1998, ainda o Sunset Boulevard, aliás Fossanova, não se tinha posto nas Fnacs desse país. Quando chegámos ao recinto, atrasados - eu, a Dona Ju, e o meu homem da altura (que estava lá para ouvir Tindersticks, que só actuavam mais tarde), já o JP Simões, de bigode decadente, cantava no palco menor, reservado aos inconnus. Foi amor à primeira audição: quem é este crooner, cruzamento de Tom Waits com paródia de Frank Sinatra? Quem é este, quem é este, repetia-se de boca em boca na ladeira de terra batida que desce em anfiteatro. Mais tarde, quando os Tindersticks chegaram ao palco principal, o público sabia que o melhor da noite já tinha passado.
Como deixei o país em 2000, nunca ouvi o "Toilette des Étoiles", segundo e último álbum dos BCH, ninguém me apresentou o Quinteto Tati, e conheço o 1970 só de ouvir no deezer. Uma pessoa anda cá fora a ganhar a vida e ninguém quer saber... Fica a ideia para prendas de natal - Natal é quando um homem quiser, e ainda só estamos nos Reis, ora.

Thursday, 18 December 2008

O sacerdote que celebrava divórcios

I think that everybody who isn't in love should be divorced. Sometimes I go down the street and when I am not in a particularly liturgical mood, blessing everything, I divorce everybody. I divorce everyone in all the houses. And I see people bursting out of the front doors and running in different directions. I feel that I really cleaned up the streets.

Leonard Cohen (aos 7'35'', with his gorgeous smile)

Tuesday, 2 December 2008

Meteorologia: 1, Joana: 0

Pois é, fica o dito e o redito por não dito... Ai, não era isto!
Era: buááááááá!!!! A neve é feia e pôs-se a cair como uma ranhosa e eu não fui a Trás-os-Montes e não vi os primos, nem os tios, nem o avô e a avó, nem comi comidinha boa, nem nada nada nada...
Fiquei por cá e tive um fim-de-semana diferente, também bom, mas nada que se compare a ir lá e respirar melhor e limpar e vir cheiinha de ares novos nesta cabeça de vento.
Em compensação, ajudei a passar a tarde/noite melhor à porta do Pingo Doce e não há nada nem ninguém que me possa dar mais do que isso.
É engraçado como ajudar os outros é um acto tão egoísta, tão auto-centrado: faz-nos bem a nós.
E sim, gozem comigo, porque ao entrar no Banco Alimentar no sábado de manhã fiquei emocionada ao ver aquelas pessoas todas a separar produtos e a música a tocar e os voluntários todos a carregar boxes, a pesá-las, a levá-las para se esvaziarem.
Comida para a vida. Food for soul, também.

Friday, 28 November 2008

Filosofia de bolso

"Lendo Plutarco"


Vangloriava-se de estar
a salvo de um mal:
perder
um filho.

Tornara-se imune a essa dor
de modo simples:
não tendo
filhos.

Sábio homem, esse,
cujo medo de perder
um filho
o fez perder
todos os filhos.

Sábio homem, esse
grego,
esse grande,
esse pobre
Tales de Mileto.

(Ruy Espinheira Filho, poeta brasileiro)

Este poema é baseado na história de Sólon, contada por Plutarco aqui (ao fundo da página) e aqui. Parece que Tales tinha um amigo chamado Sólon que lhe perguntou por que razão não tinha tido filhos. Em jeito de resposta, Tales arquitectou a seguinte manha: enviou um mensageiro a casa de Sólon a dizer que o filho daquele tinha morrido, ao que o pobre Sólon desatou a gritar e a arrancar cabelos. O Tales chega lá, todo ufano, e diz-lhe, à maneira de budista zen: "Não te preocupes, o teu filho não morreu. Mas visto o estado em que uma tal notícia deixa um homem tão razoável como tu, já vês por que razão não quero ter filhos" (ou words to that effect).

A falácia é desmontada por Plutarco, que comenta que é "irracional e pobre de espírito não ousar adquirir o que desejamos por medo de o perder, já que pela mesma lógica não deveríamos cobiçar riqueza, glória ou sabedoria, por temermos perdê-los; mesmo a saúde, a mais desejável das posses, se perde por doença" (tradução livre). Que é como quem diz que há outra forma de dor, mais vazia e árida que a de perder o que amamos, e que envena muitas vidas & velhices: a de nunca ter tentado. Poets say it better: "Talvez por não ousar / Ninguém mereça o que viveu / Talvez não amanheça" (versinhos de Vasco Graça Moura, in "Soneto Destruído", que me perseguem como um aviso).